O Mosquito Vermelho
Enquanto contemplava o pobre céu que nos protegia com estrelas esburacadas e irregulares, governadas pela apagada lua de cristal comprada há poucas semanas, esperava pacientemente pelo final da greve do sono. Há dias não conseguia pregar os olhos e, quando finalmente conseguia, acordava assustado, suando frio e ainda exausto. Dormia por no máximo duas horas e, nesse tempo, mergulhava em pesadelos terríveis de fogo e chamas, que insistiam em ser sempre os mesmos. O sono, além de fugir de mim, agora insistia em levar minha vida junto. Meu trabalho estava se acumulando em pilhas de relatórios e documentos e minha vida pessoal estava passando em branco. Não havia brigas com a minha mulher, mas via que estava perdendo momentos importantes da vida de minha maravilhosa filhinha de um ano. Eu não possuía mais olhos; eles davam lugares à duas crateras profundas e escuras que não cessavam de crescer em meu rosto. Minha esposa sabia que estava acontecendo algo comigo, mas não gostava de entrar no assunto. Ela parecia saber que eu não queria falar sobre aquilo.
Olhando para ela, minha vida voltava a ter significado. As crateras, antes abismos mergulhados na escuridão da preocupação, se iluminavam e a paz se infundia meu espírito. Ela era um anjo; eu havia realmente casado com um anjo. Nada no mundo possuía tanta beleza diante dos meus olhos. Foi quando a mais absoluta paz foi quebrada por um detestável zumbido de pequenas asinhas perto de meu aguçado ouvido direito.
Não tenho nada contra insetos. A maioria das pessoas sente medo ou repulsa deles sem nenhuma razão lógica. Elas devem se sentir inferiores a eles, tamanha é a felicidade em esmagar ou tirar a vida de uma dessas pequenas criaturas. Porque fazemos isso? Prazer? O ser humano tem prazer em matar? Acho que não. Fazemos isso para nos sentirmos superiores. Mas será que somos mesmo superiores a eles?
Tanto lugar pra voar e ele veio escolher logo perto do meu ouvido! Pobre infeliz. Esse foi seu erro. Não suportava aquele barulho e faria com que ele não repetisse este erro. Levantei de um salto da cama e corri para o interruptor. Acendi a forte luz do quarto, franzindo a testa, tentando evitar olhar diretamente para a luz e principalmente tomando o cuidado para Jéssi não acordar. Resmungando alguma coisa inconscientemente e virando para o lado, ela se aquietou. Então comecei a caça. Fiquei parado perto da cama e esperei. Não demorou muito para que o maldito pernilongo aparecesse. Não ligava para que ele me picasse, não. Sei que isso é uma necessidade de seu instinto de sobrevivência, mas ele jamais poderia me irritar a tal ponto. Teria de ser eliminado para que jamais cometesse essa ousadia novamente. E haveria de ser.
Voando em minha direção lenta e tranqüilamente, ele não sabia o que o esperava. Quando chegou a uma certa distância dentro de meu alcance, preparei o bote. De uma vez só juntei minhas mãos tendo ele como alvo, descarregando toda minha fúria para com a criatura. Fez um estalo alto e Jéssi se mexeu. Parei, imóvel e esperei. Ela se torceu e voltou ao profundo estado onírico do qual quase havia despertado. Um sentimento estranho inundou meu espírito, algo que parecia uma mistura de decepção com ira, quando voltei o pensamento para minhas mãos. Olhei para elas com um desprezo odiável e um ódio desprezível, fazendo com que se sentissem envergonhadas. E lentamente elas se afastaram uma da outra.
Esmagar, esmagar, esmagar! Um grito ecoou em minha mente e tive que fazer um esforço como nunca para que ele não tomasse a forma de palavras. Maldita criatura! O desgraçado havia escapado das minhas incompetentes garras e agora seria extremamente penoso encontrá-lo na imensidão que o quarto se transformara. Infinitos esconderijos foram descobertos em uma rápida olhada ao meu redor e vasculhar todos seria perda de tempo e nada útil. Resolvi então sentar na cama ao lado de Jéssi para esperar a volta do infeliz inseto.
A espera fez com que meu corpo se transformasse num poço de raiva e ansiedade cheio até a borda. Esfregava minhas mãos uma na outra até que a minha razão começou a voltar, ou melhor me atormentar. Porque estou fazendo isso? Uma criatura da natureza, inofensiva, merecia morrer por apenas ter me irritado? Já havia me irritado várias vezes em minha vida com pessoas e nunca havia perdido o controle. Aquele pernilongo era fraco, mais fraco que eu e me havia importunado. A vida dele não possuía significado pra mim. Mas eu sabia que ele importava muito para sua espécie e isso não parecia me importar. Não mais. A vida de algumas pessoas também não me importava. Mas nunca havia tocado em alguém com o instinto de machucar. Por quê?
Ah, lá vinha ele. Parecia estar louco, talvez meio tonto pela minha frustada tentativa anterior de exterminá-lo, voando em uma espécie de zigue-zague. Esperei, novamente imóvel, até que ele se aproximasse de mim. Mas o alvo não foi eu e sim Jéssi. Ele se aproximava da suave pele de seu lindo e descoberto braço pronto para dar o infeliz bote. Não esperei nem ele pousar suas patas imundas em minha Jéssi. Minhas mãos se juntaram nele com uma fúria maior que a anterior e eu mal podia controlá-la. O barulho foi maior que o anterior, mas Jéssi não se moveu desta vez. Certo de que o havia pego, corri para a pia do banheiro da suíte para lavar as mãos e me livrar daquele maldito ser de uma vez por todas. Cheguei à pia rapidamente e abri lentamente as mãos.
Vitória! Um sorriso se infundiu em meus lábios quando vi aquela criatura amassada em minha palma da mão. Seu corpo estava meio despedaçado e vermelho. Vermelho de sangue.
Fui abrir a bica com a mão menos suja e meus olhos se esbarraram no espelho que parecia me encarar à frente. Me choquei com o que vi. O sorriso que povoava meus lábios não era puramente satisfatório; além de tudo era bizarro. Senti medo de mim mesmo. Eu parecia sentir um prazer louco em ver aquele pobre inseto morto em minhas, agora poderosas, mãos. Mas o que eu sentia não era superioridade, não era mesmo. Era sim um prazer, um prazer louco. E eu não sabia o porquê deste prazer... ou melhor não queria sabê-lo.
E eu nunca, nunca me esqueci daquele mosquito vermelho.


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